31/12/09

Álbuns 2000 #1

Radiohead - Kid A (2000)

Passados quase dez anos sobre a saída de Kid A, continua a ser impossível encontrar outro disco que defina tão bem esta época. O lado B da euforia mainstream, o anti-pop que vende milhões, a música que antecipa a paranóia e o medo pós-milénio que vivemos. Os Radiohead deixaram de querer canções e conseguiram encontrar estados de espírito - a electrónica sublinha tensões, os ritmos estimulam a disforia, as peças que compõem cada puzzle encaixam mal, mas fazem todo o sentido.
Tudo no seu lugar, como Thom Yorke ensaia na primeira música, um sossego desinquieto, uma espécie de aviso para o que se segue: o robô infantil de Kid A, cantando como se fosse um flautista mecânico de Hamelin, a quem seguimos cegamente; o pseudo-hino insuflado de sopros desconchavados de National Anthem ("what's going on?"); a maravilhosa balada ensimesmada, Everything in its Right Place, um lamento sobre a transparência existencial e a possibilidade de fuga, "isto não está a acontecer", os violinos a sublinhar o desespero; e depois Treefingers, o perturbador interlúdio instrumental que tanto pode ser usado como acompanhamento para meditação como modo de evidenciar a alienação que o resto do álbum provoca, três minutos vindos directamente de 2001, Odisseia no Espaço; o silêncio precede o optimismo, como o DSM-IV avisa, e em Optimistic o ritmo rock acompanha uma letra sobre a distância, no fundo a melhor maneira de esquecer "os abutres que sobrevoam os mortos" e "os peixes maiores que comem os mais pequenos"; mas a bonança dura pouco, o caos regressa em In Limbo, armadilhas a cada passo, o afastamento, o isolamento e a lucidez que ele traz, "i've lost my way"; Idioteque é simultaneamente uma crítica ao vazio (que convoca e critica Discothéque, dos U2) e um princípio de entrega à loucura, quando não resta outra saída que não seja a retirada para um bunker, "here i'm alive/everything all the time". Depois, Morning Bell acentua o desfasamento da realidade - frases deixadas a meio, ideias vagas, e o cândido ritmo da voz de Yorke contrastando com a violência da letra: "Cut the Kids in Half/Cut the Kids in Half" - talvez a melhor música do álbum, perfeita. Para terminar, um som de acordeão transporta-nos finalmente a um porto seguro, e percebemos que apenas a banalidade do quotidiano - "cheap sex and sad films" - nos pode trazer algum conforto - e um simulacro de amor, antes do fim chegar - "I Will See You in the Next Life".
Ouvi este disco dezenas, centenas de vezes, e ainda consigo encontrar coisas em que não reparei antes: os versos têm outro significado, os vários trechos musicais combinam de forma diferente, a sequência em que ouço as diversas faixas muda, e o sentido também. Enquanto uma boa canção pop está ligada quase sempre à repetição, ao passado - de cada vez que a ouvimos, a sensação é quase a mesma - as músicas dos Radiohead questionam - o presente, as ideias sobre o mundo, os clichés musicais que se repetem. A música existencial para principiantes. Para todos.

(vídeo aqui, ao vivo e epiléptico)

30/12/09

Álbuns 2000 #2

The Strokes - Is This It (2001)

O som desta década, tudo o que se seguiu, foi definido por este álbum, e isso seria o suficiente para estar na lista. O rock nunca mais foi o mesmo? Não vou tão longe, mas a verdade é que os Strokes, entre o revivalismo pós-punk e uma pose arty nova-iorquina, facção Velvet Underground, foram o cadinho onde foram buscar inspiração dezenas de bandas rock que se lhes seguiram. Então, o rock nunca mais terá sido igual. Bateria sincopada e minimal, baixo ritmado, guitarra ritmo ondulante e solos resgatados directamente aos anos 70 (Undertones, Wire) juntaram-se à voz de ressaca displicente de Julian Casablancas para criar uma obra que, sobretudo é uma magnífica colecção de singles (à maneira dos Smiths). Não há uma faixa deste álbum que não seja suficientemente pop - até New York City Cops, homenagem ao punk mais puro, é um hino. Podemos exigir mais aos Strokes? Mais rasgo, mais invenção? Não me parece que o rock precise sempre destes dois ingredientes. Inventar o som de uma década é mais do que suficiente. O rock de guitarras angulares e estilo negligente estudado dura o que durar, como sempre, mas a eles ninguém pode tirar isso.

(vídeo aqui)

Álbuns 2000 #3

Sigur Rós - Ágaetis Byrjun (2000)

E agora, para algo completamente diferente. Depois de Björk, a banda que aprendemos a identificar com a Islândia. Guitarra tocada como se fosse um violoncelo desafinado, sintetizadores etéreos, sons sinfónicos siderais, uma voz de sereia andrógina planando, uma língua inventada, indecifrável. Será tudo isto, mas a descrição é sempre insuficiente. A maior qualidade dos Sigur Rós é a capacidade de criação de ambientes - planícies geladas, fiordes descomunais, o mar revolto trazendo marinheiros a portos abandonados, histórias de amor entre humanos e seres quiméricos, o fogo arrefecido de antigos vulcões pulsando por baixo da terra. Esta música ancestral, que transmite mais sensações do que ideias, vai se infiltrando lentamente até se transformar numa vaga avassaladora, como um rio de magma arrastando rochas e detritos, lavando a terra das suas impurezas originais. Estamos num outro mundo, que transcende a música que o cria. Brilhante.

(vídeo aqui, excelente como todos desta banda)

29/12/09

Seberg/Belmondo

Álbuns 2000 #4

Queens of the Stone Age - Songs for the Deaf (2001)

O rock, rock a sério, nesta década, passa pelos descendentes do grunge Queens of the Stone Age, e seus companheiros e camaradas, Eagles of the Death Metal e a série de projectos paralelos, que culmina nos Them Crooked Vultures deste ano, super-grupo que inclui John Paul Jones, antigo baixista dos Led Zeppellin. O melhor álbum dos QOTSA é Songs for the Deaf; e é perfeito porque tem a colaboração do melhor baterista rock dos últimos vinte anos, Dave Grohl - e não se fala mais em Foo Fighters, que a vaidade nos génios é um defeito desculpável. E Mark Lannegan, ex-Screaming Trees, é também fundamental na definição do som - a voz que veio do grunge faz a ponte entre as duas décadas.
Música para ouvir num qualquer bar de motoqueiros perdido no Texas, riffs de bateria divinos, baixo hipervitaminado, guitarras rasgadinhas, letras politicamente incorrectas qb: é esta a receita para a perfeição.

(vídeo aqui)


20/12/09

Álbuns 2000 #5

Arcade Fire - Funeral (2004)

Um álbum que é uma celebração dos queridos mortos - dificilmente uma banda poderia arranjar melhor assunto para primeiro trabalho. E transformar o que seria uma elegia fúnebre, negra, numa festa em palco, eis o grande feito dos Arcade Fire. Mas, para além dos épicos desempenhos ao vivo, há a música, algures entre David Bowie e a folk, com uma ou outra passagem pelos New Order e os Pixies, num álbum que evoca os gloriosos anos 90, e que apenas poderia dizer algo a quem passou por lá, oscilando entre a melancolia e a euforia, entre Radiohead e Smashing Pumpkins (há muito do desequilíbrio deles em Funeral), entre o fim de qualquer coisa e o princípio de algo que rapidamente passou - o grunge, claro. Se nos limitarmos às pequenas coisas que os Arcade Fire também têm - as histórias de infância, as zangas entre irmãos, as brincadeiras que queríamos prolongar até ao infinito, todos os sons que ilustram a sensação de perda - teremos o suficiente. O hype da década, que nos desiludiu ao segundo ensaio, prolongou-se para lá da estação em que nasceu. Um grande álbum, imperfeito e belo como também podem ser os grandes álbuns.

(vídeo aqui)

18/12/09

O silêncio continua a ser de ouro

Ora, portanto, bingo, José Mário, estou contigo. Eu ainda tive paciência para lhe aturar os humores, enquanto achei que a verve e o estilo lhes eram superiores. Mas há um limite, e Vasco Pulido Valente bem se esforça para chegar lá, abnegadamente. É claro que ele não tem razão neste caso, e mais, raramente tem razão, e pior, quando tem razão, tem a razão de um qualquer taxista, que acerta apenas no mal que toda a gente conhece, não sugere nada que acabe com esse mal e tem-se sempre em grande conta, achando-se único num mundo que não o compreende - recorrendo sempre ao "que se faz lá fora". O que nos resta agora é assistir à agonia do homem, todas as semanas, se para isso alguém tiver pachorra. Haja quem, que é triste a decadência.

Álbuns 2000 #6

The National - Boxer (2007)

Repara-se primeiro na maravilhosa percussão das músicas, a bateria, maquinal, repetitiva, depois o baixo, e sobre o ritmo assentam as palavras de Matt Berninger, melancolia e desilusão amorosa, numa destilação pura, vintage e grave, perfeita. Se os Joy Division são a banda para a adolescência tardia, os National devem ser a cura para o arrependimento, a banda-sonora ideal para o desencanto da idade adulta. As manhãs de ressaca cada vez piores, os fins de relação cada vez mais penosos, os inícios cada vez mais cínicos. O estado de espírito de uma geração na década dos 30 em forma de álbum, e lá se confirma a ideia da música ser uma abstracção concreta, e não algo de indefinível. Recontextualizemos: não quero que todos os que são desta geração gostem da música dos National; quero apenas que aqueles que eu entendo a entendam. Somos muitos, ou poucos, não interessa, somos os suficientes. E mesmo sem as letras de Berninger, seria sempre um grande álbum.

(vídeo aqui)

17/12/09

A cultura da Direita

Caro Rui,

não querendo acrescentar muito mais ao que escrevi, e relembro o que escrevi: "e fico a matutar naquela ideia da direita matarruana no que toca a assuntos de cultura. Se não fosse o Pedro Mexia e outros a contradizer o preconceito...", penso que devias ler hoje no Público - se não o fizeste já - o texto (indisponível para não assinantes) escrito em conjunto por Rui Machado, director do ANIM, e Luís Miguel Oliveira, director do Departamento de Exposição Permanente da Cinemateca, no qual esclarecem a razão do referido arquivo se situar em Bucelas e não no centro de Lisboa. Confesso que não conhecia essa razão, mas ainda fiquei mais elucidado sobre a atitude de Helena Matos; ela escreveu sobre aquilo que não conhecia a fundo, motivada por razões exclusivamente ideológicas. "Se a Cinemateca é um organismo público e se dela depende o ANIM, então deve funcionar mal, de certeza", terá pensado. Parece-me claro. Enquanto eu questiono o meu preconceito em relação à atitude da direita no que diz respeito a questões de cultura, Helena Matos atira-se de cabeça e critica sem saber minimamente do que fala. Quanto a isto, estamos conversados.
Quanto ao resto, julgo que já tivemos esta conversa antes. A minha posição é clara: não faz qualquer sentido não haver em Portugal uma Cinemateca (ou duas, ou as que forem necessárias) e as instituições que dela estão dependentes. O cinema é uma manifestação cultural essencial, e é essencial que os filmes que não tenham distribuição comercial regular estejam disponíveis ao público. E em sala, não em DVD, quem gosta de cinema sabe qual é a diferença. Mas esta é apenas a função primária da Cinemateca - o arquivo de imagens que lhe está associado é a verdadeira razão de existência da instituição; os filmes produzidos em Portugal desde os anos 20 são, como deves imaginar, de uma importância extrema para a compreensão do tempo em que foram feitos, são a memória viva dos acontecimentos que registam, das impressões que deixam, de um sentir das sociedades que neles são retratadas. Alguém que não compreenda isto não me merece consideração. Mas, de que modo é que esta divulgação e conservação deverá ser feita? Será que acreditas na bondade do mercado perante algo que é, manifestamente, pouco ou nada lucrativo? Todos os países que têm Cinematecas, incluindo os de modelo mais liberal, financiam estas instituições - é assim em Espanha, em França, e, pasme-se, Inglaterra (o British Film Institut depende do mecenato e de subsídios). Não faz sentido nenhum entregar o governo destes bens a privados porque, primeiro, ninguém se interessaria, e segundo, seria um risco, tendo em conta as leis do mercado, que visam o maior lucro com o menor custo possível. Nós pagamos a manutenção da Cinemateca porque ela faz parte do património cultural do país, ponto final. Quanto à crítica tantas vezes repetida de que deve ser quem consome os produtos culturais a pagar, devo dizer-te que, para se ir ver um filme à Cinemateca, paga-se entrada, assim como no Teatro subsidiado, nas Óperas subsidiadas (e não é pouco) ou nos museus. Aliás, os museus são um verdadeiro caso de estudo em Portugal, principalmente se comparado com a Inglaterra, onde se pode entrar sem pagar em muitos (financiados pelo Estado e por mecenas) ou mesmo com a França ou a Alemanha, onde, proporcionalmente, os preços são muito mais baixos. Portanto, "as classes médias elitistas e aculturadas" pagam a cultura do seu bolso, mas apenas isso não é suficiente para a cultura existir; e a alternativa é não existir de todo, o que penso não ser aquilo que desejas.
Já agora, de entre tudo aquilo de que gostas, música, cinema, livros, etc, tens a certeza de que, em algum ponto do percurso até chegar a ti, esse produto não foi patrocinado pelo Estado, seja através de subsídios à criação, bolsas académicas ou subsídios à produção? Não farás tu parte dessa horrorosa "classe média elitista e aculturada"?

(na imagem vê-se António Reis filmando Trás-os-Montes)

14/12/09

Álbuns 2000 #7


LCD Soundsystem - Sound of Silver (2007)

E pensar que há 15 anos dizia o pior que se possa pensar de toda a música electrónica; é verdade que os LCD não são propriamente uma banda electrónica - a estrutura das canções é pop-rock, e estão lá todos os instrumentos tradicionais do rock - guitarra, baixo, bateria. Mas o uso de sintetizadores resgatados aos anos 80, Daft Punk pelo meio (os mestres do electro-indie), e a influência distante dos avós Kraftwerk, faz deste projecto de James Murphy um dos mais, vá (será que uso a palavra?), trepidantes da última década. Quando ouço LCD Soundsystem penso em discotecas nova-iorquinas em finais dos anos 70, mas depois lembro-me que nessa época ou era-se disco, e era horrível, ou punk e pós-punk, e era-se hip. Curioso que os LCD não andem assim tão distantes dos ritmos dançantes do disco, e continuem a ser respeitados por quem dita o bom-gosto.
Exemplificando esta mistura, temos a música All My Friends, que começa com uma vaga evocação do piano de Keith Jarrett e termina em eufórica festa, celebração das saídas à noite com os amigos, um hino à inconsequência prática; não admira que os Franz Ferdinand tenham feito uma versão - a energia rock está toda lá.

(video aqui)

(versão dos Franz Ferdinand)

Noël Carroll, hoje na FCSH

Noël Carroll é Distinguished Professor de Filosofia no Graduate Center da City University of New York e um dos mais importantes filósofos mundiais no campo da arte e da estética, particularmente na área da filosofia do cinema.

(ver aqui)

13/12/09

Álbuns 2000 #8

Radiohead - Amnesiac (2001)

O segundo melhor álbum dos Radiohead nesta década é também a segunda parte de Kid A, menos experimental e mais próximo do formato tradicional de um conjunto de canções pop. O regresso aos singles com video é também exemplo desta reaproximação ao mainstream. Mas a paranóia moderna está toda lá, o experimentalismo também, com passagens pela electrónica (Morning Bell), pelo rock de guitarras bluesy (I Might be Wrong), e pela típica canção radioheadiana, de início calmo e final furioso (You and Whose Army?). Tem uma das melhores canções da banda, o single Knives Out - a guitarra cristalina vai construindo a música de acorde em acorde, e Thom Yorke limita-se a ir atrás, subindo e baixando de tom na linha quase desafinada que a sua voz orgulhosamente exibe. A mais importante banda dos últimos quinze anos (os Beatles da pós-modernidade pop) num ensaio quase perfeito.

(video aqui, de uma versão ao vivo, não está disponível o vídeo original)

11/12/09

Álbuns 2000 #9

MGMT - Oracular Spectacular (2008)

No ano em que Brooklyn se tornou o centro da música pop (Santogold e Vampire Weekend incluídos), a banda que criou o melhor álbum psicadélico desta década. Recorrendo mais a sintetizadores analógicos do que a guitarras, contaram com a ajuda do produtor dos Flaming Lips e antigo baixista e baterista dos Mercury Rev, Dave Friedman, para dar coesão a um punhado de canções com as letras mais estimulantes dos últimos anos. Um sonho juvenil de adolescentes a caminho da idade adulta, no qual cada canção é como uma imagem que recupera ilusões perdidas e desilusões perenes, o álbum é também um caleidoscópio de sons que tanto podem citar os referidos Mercury Rev como os abomináveis Bee Gees ou Michael Jackson, sem nunca perder a coerência. E, sobretudo, é um daqueles trabalhos que se vai sedimentando lentamente em nós - a cada audição descobre-se coisas novas, breves associações, ruídos de infância, uma referência a algo que julgávamos ter esquecido. Tenho a certeza de que vou ouvir estas músicas durante muito tempo, e mal posso esperar pelo próximo álbum. Como amostra, o grande primeiro single, um hino lúcido e irónico ao que é a vida das estrelas pop, Time to Pretend.

(video aqui)

Álbuns 2000 #10

M.I.A. - Kala (2007)

Os Tigres Tamil podem ter sido derrotados, mas M.I.A., dois anos antes, quase conquistou o mundo. Sem exagerar (mas exagero, quem sabe quem ela é?), o álbum Kala, entre a vanguarda musical londrina (grime, hip-hop) e o trash da música de Bollywood e um outro namoro a linguagens world (kuduro incluído), é uma montanha-russa de batidas que obriga a mexer o corpo, mesmo quem, como eu, tem uma vida mais sedentária do que devia. Do Sri Lanka para o mundo, a M.I.A. apenas devemos desculpar ter participado na banda-sonora de Quem Quer ser Bilionário (apesar do reconhecido bom gosto de Danny Boyle). Mas Kala é anterior a isso. E a denominação música de guerrilha nunca foi tão apropriada - a violência das letras contrasta com o ambiente geral de diversão que transparece do álbum. E é raro vermos alguém utilizar os samples de modo tão certeiro; exemplo disto é a fabulosa Paper Planes, os Clash a dar uma mãozinha e os Beastie Boys en passant, a apadrinhar a coisa. Brilhante e censurado, como deve ser.

(Video aqui)

Listas

Ah, a década que a música dos Pulp inventou, e já passou. Disco 2000, mas tal como chegámos ao presente sem que o presente se aproxime sequer do que era o futuro em Buck Rogers - e ainda bem -, passámos o presente e chegámos a uma conclusão: a década passada foi mais cool do que se pensava, a década em que o alternativo se tornou mainstream (Arcade Fire, The Strokes), a década em que a música pop pode ser sofisticada (Justin Timberlake, Kanye West), a década que concilia a mais popular javardice (futebol e Ená Pá 2000) com as vítimas da moda e dos restaurantes trendy, dos hambúrgueres gourmet e do gourmet popular, a década da continuação da crise perpétua, dos falhanços futebolísticos, da ripanço e do sacanço internético, a década em que praticamente deixei de comprar música sem a deixar de ouvir, a década que nada decidiu, como todas as décadas. Fiz as minhas listas, e vou-me lembrar do que deixei de fora, inevitavelmente.
E esta foi também a década em que comecei a blogar. O presente passou.

10/12/09

Um tornado lento

Helena Matos, num curto texto hoje no Público, ensaia um curioso exercício de auto-crítica, não sei se irónica ou não, depois de um longo texto no qual reafirma a sua descrença no aquecimento global e em tudo o que os perigosos ecologistas de esquerda fazem para salvar, vá lá, o planeta. O método é banal: falar do passado para descrever o presente, esquecendo-se de que os ciclos acontecem, é um facto, mas a cada regresso alguma coisa mudou. Certamente só alguém muito confiante no futuro - e portanto, possuindo dons proféticos que Gabriel Malagrida certamente não desdenharia ter - pode achar que a subida de alguns graus na temperatura média do planeta e a série de consequências que o acontecimento tem provocado é uma grande coincidência, a Natureza a seguir o curso normal das coisas. Sacanas dos cientistas, que no fundo querem é organizar lobbies anti-petrolíferas e pró-empresas que desenvolvem tecnologia para o aproveitamento de fontes de energia alternativas. Não sabemos que resultado pode surgir deste combate de profetas, mas temos a certeza de que a sensatez ficará a perder.
Até porque é o curto segundo texto que confirma o que é evidente já no primeiro: Helena Matos começa a falar sobre a nomeação de Maria João Seixas para directora da Cinemateca ironizando com a chusma de cinéfilos que saltou da toca a propósito deste assunto, completando o que diz ao afirmar que não frequenta a sala da Barata Salgueiro, e continua criticando a localização de um organismo (Arquivo Nacional das Imagens em Movimento) que, dependendo da Cinemateca, se encontra demasiado longe desta, em Bucelas. Nada mal para quem não visita o espaço, e para quem acha mal que tantos tenham uma opinião sobre a nomeação de Maria João Seixas. Eu, que passei muitas horas formando o meu gosto cinematográfico ali, apenas posso ter uma opinião sobre a opinião de Helena Matos - não é para isso que aqui estamos, escrevendo num blogue? E fico a matutar naquela ideia da direita matarruana no que toca a assuntos de cultura. Se não fosse o Pedro Mexia e outros a contradizer o preconceito...
E Maria João Seixas? Uma nomeação política, é certo; ligada ao PS, ocupou vários cargos sempre nomeada directa ou indirectamente por este partido, mas a verdade é que quase todas as nomeações para cargos públicos são o fruto de um sistema político que liga mais à cor do que ao mérito; Bénard da Costa também lá chegou apontado por Vasco Pulido Valente e acabou por realizar um trabalho exemplar na instituição. É esperar para ver, e ela parece ter crédito suficiente junto do meio para usufruir do benefício da dúvida.
Será que sou suficientemente cinéfilo para ter uma opinião sobre o assunto?

08/12/09

Não sei se já disse que gosto mais de Zurlini do que de Fellini

Tempo de balanços

Este ano vou fazer três listas: os melhores livros que não terminei; os melhores discos dos quais conheço apenas algumas músicas; e os melhores filmes com soneca incluída. Não sei se isto é uma promessa.
(E acaba a década, mais uma década, a década decisiva que acabou por nada decidir).

Avulsos


Há várias razões para acreditar que Luís Miguel Queirós é o melhor jornalista literário a escrever em jornais portugueses; a mais recente foi o texto que saiu há uns dias no P2 sobre Nabokov e o romance póstumo agora publicado, literatura em peças para montar, frases e parágrafos aos pedaços.
The Original of Laura é um conjunto de fragmentos que muito dificilmente se poderia chamar de romance, mas ainda assim é melhor do que se não houvesse nada; para o diabo com a vontade do escritor morto. Se respeitássemos os mortos não teríamos Kafka e Pessoa, e isso, mais do que à humanidade como um todo, iria deixar-me bastante aborrecido, isto se eu pudesse ter conhecimento de que tinha sido escrito algo que poderia fazer-me acreditar que a minha vida iria mudar com tal leitura. Falamos de hipóteses, claro; a mudança é uma questão de perspectiva, e parece que na realidade não existe - já repararam como Obama passou de Messias a traidor em menos de um ano ou o Benfica regrediu de "temível adversário" a uma equipa que qualquer um que não seja designado sucessor de Mourinho consegue ultrapassar se jogar com pelo menos três trincos (a cacofonia é propositada) e um guarda-redes em fase de hiper-ventilação vitaminada? Muda-se apenas para que se possa voltar à forma inicial - a frase truncada e retirada de uma obra literária mais citada dos últimos tempos, ou então eu ando a ler as coisas erradas.
Lamento dizer, mas ainda não comecei a ler 2666, que estava para ser escrito "&&&. Conheço várias vítimas de tijolos literários - qual a percentagem de pessoas que comprou a Ilíada, e a Odisseia e o D. Quixote, que realmente terá chegado ao fim da leitura? Mas quem poderá duvidar de que o uso dado a estes livros - elegante decoração das estantes Billy do quarto e da sala - concorre menos para a felicidade mundial do que efectivamente terem sido lidos? Como tal, não me atrevo. Já fui derrotado uma vez pelo Ulisses, duas pelo Proust e três pela Montanha Mágica - e confesso que, apesar do empolgamento sentido ao ler Moby Dick, prefiro de Melville o fabuloso Bartleby, mais do que herói literário, exemplo que deveria seguir com mais persistência.
Desse modo, e querendo preencher a minha quota parte de livros da Quetzal, a editora renascida das cinzas pela mão de Francisco José Viegas, peguei num livro da extinta editora Escritor - Ernestina, de Rentes de Carvalho (é claro que o livro foi agora reeditado pela Quetzal), e é difícil perceber como o público leitor português ainda não descobriu este escritor de estalo. O exílio leva ao esquecimento, uma lástima - ele é mais lido na Holanda do que por cá, mas o Lobo Antunes é mais lido por cá do que na Holanda e, como toda a gente sabe, os holandeses são muito mais cultos, educados e estudados do que nós - para bom entendedor...
Um relato autobiográfico que regressa a uma infância passada entre uma aldeia de Trás-os-Montes e o Porto, nas primeiras décadas do século passado - é este o resumo do livro, mas não mostra nada; o que vale a pena, em Rentes de Carvalho, é a cadência da frase, a riqueza do léxico, o vivo ritmo narrativo que nos transporta a um tempo irrecuperável.
Sabemos que nada dura para sempre - Nabokov não podia fazer nada com os papéis deixados para serem usados como peças de um puzzle (pelo menos o livro, editado pela Alfred Knopf, é um objecto fascinante, um achado em termos de grafismo) - e a glória é transitória, mas por vezes seria justo reconhecer a competência dos competentes em vez de se comprar (e comprar, e comprar) o produto da incompetência dos incompetentes. O ideal seria que o tempo trouxesse justiça ao escritor, e não à obra; como escreveu Woody Allen... ah, ah, não é desta que me apanham a citar alguém a trouxe-mouxe; o que ele terá escrito foi: "para o diabo com a posteridade da obra, eu queria era viver para sempre!". O que, convenhamos, poderá ser, objectivamente, entediante.

27/11/09

O som das árvores

Penso em árvores.
Por que, do lugar onde vivemos,
Preferimos ouvir
O som que elas fazem a
Qualquer outro?
Constantes, suportamo-las
Até perdermos o sentido de ritmo
E nos distraímos dos nossos prazeres imutáveis,
E lhes damos atenção.
Elas são como alguém que fala
Em partir mas nunca o faz.
E continua a falar, mesmo
Envelhecendo, ficando mais sábio,
Agora é que vai mesmo ficar.
Por vezes, os pés batem no chão,
E a cabeça balouça quando,
Da janela ou encostado à porta,
Vejo as árvores balouçar.
Partirei para longe,
Tomarei a ousada decisão,
Um dia, enquanto elas levantam a voz
E se agitam, alarmando as brancas nuvens
Por cima.
Falo menos,
Mas partirei.

Robert Frost, incluído em A Poet's Guide to Britain, ed. Penguin

traduzido por

3.16

Augusto Alves da Silva

24/11/09

Terceiro Mundo

Não quero saber se Portugal é um país do primeiro ou do terceiro mundo - se não somos mais do que somos, será por não termos qualidades para isso, e a culpa é de todos, dos que fazem e dos que deixam fazer, dos que erram e dos que deixam errar. Mas irrita-me o complexo de superioridade bacoco sempre que nos comparamos com países que têm mais do que dois índices de desenvolvimento inferiores ao nosso. E o desporto é um terreno propício a estas exibições patéticas que comprovam parte do que os pessimistas afirmam. Aconteceu no recente Portugal-Bósnia um desses fenómenos absurdos - durante a semana que antecedeu o jogo da segunda mão, não houve tablóide ou telejornal que não acicatasse os ânimos da nação, numa espécie de simulacro do entusiasmo que naturalmente aparecia no tempo em que Scolari era treinador da selecção. Carlos Queirós não tem carisma nem está preocupado em tê-lo, se ter carisma significar um apelo a sentimentos nacionalistas ligados a uma competição desportiva - se isto é bom, não interessa, uma vez mais temos o seleccionador que merecemos. Durante essa semana, os jornalistas despiram o seu facto de macaco e tornaram-se adeptos da selecção, hábito antigo, e a conversão teve o seu cúmulo durante a transmissão do jogo na TVI, com o chorrilho de insultos lançado contra a FIFA por ter permitido o jogo num campo em mau estado; contra a Bósnia, por ter marcado o jogo para aquele campo; contra os adeptos, porque estavam a torcer pela sua selecção com um fervor fora do habitual. Nada que não tivéssemos visto antes, em outros jogos, mas com uma nuance decisiva: o tom de superioridade que estes "adeptos" exibiram - no fundo, Portugal é um dos países da União Europeia, e apesar de tudo é mais desenvolvido do que a Bósnia. O contraste entre este discurso pacóvio e o outro, o que é mostrado quando a selecção joga contra equipas de países mais ricos, é acentuado: aí, fala mais alto o nosso complexo de inferioridade, que não passa de um espelho do de superioridade - ainda me lembro da mão de Abel Xavier na meia-final do Europeu de 2000 e do coro indignado que se levantou a propósito da decisão, justa, do árbitro: "se fosse a França, não teria sido marcado". O problema é que a realidade se encarrega sempre de desmentir a imagem que temos de nós próprios. Hoje, uma pequena notícia na secção desportiva do Público confirma esta ideia: dois dirigentes da Federação Bósnia de futebol foram condenados por fraude fiscal e desvio de fundos, e sentenciados a 5 anos de prisão. Ora, pensemos no que aconteceu por cá quando foram empreendidas investigações ligadas ao mundo do futebol: absolvições, sentenças suspensas, penas irrisórias. O F. C. Porto perdeu alguns pontos quando o campeonato já estava ganho, os dirigentes não foram afastados dos cargos; Valentim Loureiro continua a ser reeleito para cargos públicos; Vale e Azevedo desviou milhões e continua a salvo da justiça. E falamos só de futebol. Porque se falarmos do resto, o panorama ainda fede mais: suspeitas de favorecimento, desvio de fundos, corrupção, manipulação de meios de comunicação, etc., etc., etc., aquilo que está na ordem do dia, serve apenas para vender jornais e alimentar a cloaca das notícias. Sentenças definitivas, revelações conclusivas, qualquer coisa que não passe da suspeita, nada, nada se passa.
Afinal, qual é o país do terceiro mundo?

21/11/09

Smells Like Teen Spirit/Nirvana

Voltei a ouvir Nevermind, alguns anos depois - dois, três - e vou gostando cada vez mais da bateria de David Grohl, e portanto cada vez gosto menos de Bleach, que tem mais raiva mas menos atitude do que os álbuns posteriores dos Nirvana, em parte - grande, grande parte - porque Grohl ainda não fazia parte da banda. Devo dizer que o texto de Vítor Belanciano para o Ípsilon de sexta é dos melhores que eu já li sobre Kurt Cobain, o único lido num jornal - com limite de caracteres incluído - que consegue aproximar-se do que terá sido o fenómeno.
Os Nirvana, são, sobretudo, Nevermind, e Nevermind é, sobretudo, Smells Like Teen Spirit, que é, para além da música, o video, dirigido por Samuel Bayer. Numa altura em que parece que a maior parte dos adolescentes focou os seus interesses em produtos plásticos de terceira categoria, histórias de vampiros e bandas nu-metal requentadas, filmes gore com sangue e violência filmados como se fossem um piquenique de domingo à tarde - estamos tão longe dos filmes de terror com mensagem de Wes Craven ou dos zombies de Romero - é bom lembrar, lágrima saudosista ao canto do olho - a falsa verdade - 4 real, como desenhou a lâmina no braço de Richey "Manic Street Preachers" Edwards - dos Nirvana, os milhões de adolescentes que, durante alguns anos, acreditaram num tipo que não fingia o sofrimento e a rebeldia; o contrário de uma estrela rock, como escreveu Vítor Belanciano, um mártir. Em vão.

15/11/09

When the Deal Goes Down/Bob Dylan

Mencionar Bob Dylan e Mad Men no mesmo texto inevitavelmente leva a que pensemos em When the Deal Goes Down, a música do álbum Modern Times e o video com Scarlett Johansson. Realizada por Bennett Miller (que dirigiu também o filme Capote), a curta é uma homenagem à mesma época em que se passa Mad Men (para além de ser um hino a Scarlett, mas isso é outra história) e a perfeita ilustração da história de amor cantada por Dylan. O recurso ao formato Super 8 - e a ajuda de alguns efeitos que pretendem simular a passagem do tempo no filme - recria o espírito de uma década perdida, uma era de optimismo e beleza eterna, um tempo que agora não passa de uma memória vaga. O video de Miller e a série, apesar de retratarem o mesmo período, são distintos: o primeiro apela à nostalgia, situa-se num presente que procura resgatar um passado irrecuperável; a série é linear, alusiva, pretende ser fiel ao que se passou - vive no passado, cria uma realidade autónoma, que não depende da memória. Há uma representação obsessiva dos pequenos pormenores, hábitos, objectos, situações, marcas culturais que foram deixando de fazer sentido: fumar em público, bater em crianças, ir de comboio da cidade ao subúrbio, etc. Mad Men é o retrato de uma época de homens a quem era permitido mais do que agora e de mulheres que sonhavam ter mais do que o conforto de uma vida burguesa: a vida suburbana que também conhecemos dos livros de Richard Yates, John Cheever, Dorothy Parker, dos quadros de Edward Hopper, do cinema de Douglas Sirk (All That Heaven Allows) ou Todd Haynes (Far From Heaven).
O video para a música de Dylan é um sonho de uma época; Mad Men é a possível realidade, o fim de algo - a revolução hippie estava a chegar.

13/11/09

If You See Her

Via um episódio da primeira temporada de Californication que nunca tinha apanhado, e que termina com uma bela sequência ao som de Bob Dylan, Hank Moody cantando para a filha uma canção de dor de corno, If You See Her Say Hello, de Blood on the Tracks, atenuando a dor de um desgosto amoroso. Havia uma linha de diálogo: "Pai, esta dor no coração vai passar?" "Se tudo correr bem, não." E por aí fora. A qualidade cinematográfica de algumas séries de agora é evidente. Mas o que mais se destaca são os argumentos, tanto as linhas narrativas como os diálogos. Do sarcasmo socrático de House ao humor negro irónico de Dexter, passando pela qualidade beat de Californication - Los Angeles, a cidade de todos os pecados -, é verdade que as séries de televisão conseguem neste momento oferecer aquilo que o cinema de Hollywood deixou de ter. Vale mais meia hora de um qualquer episódio de Mad Men do que os últimos cinquenta filmes estreados em Portugal saídos da linha de montagem americana. Contrariando a ideia de série enquanto produto semanal consumido e rapidamente descartado, muitos episódios destas séries perduram na memória de modo tão nítido como alguns filmes marcantes dos últimos anos. Lembro-me por exemplo do episódio em que House é baleado - a excelente trip narrativa que é montada -, ou de alguns dilemas morais de Dexter ao cumprir a sua função no mundo, eliminar criminosos.
Voltando a Dylan, pode-se dizer que outra característica desta idade de ouro da ficção televisiva é o modo como as referências culturais definem as personagens - o achado da música dos Rolling Stones como hino de House é o melhor exemplo, mas não faltam outros em todas as séries que refiro. Talvez a minha visão tenha sido deformada por todas as influências que recebi ao longo da vida - quase toda a produção audiovisual veio da América. Poderia afirmar que conheço esse país tão bem como muitos americanos, mas a verdade é que não sei que América é essa que o cinema e televisão me mostram, o que tem ela em comum com a América real, independente das imagens que a recriam. Afirmar que as duas são verdadeiras é uma presunção arriscada, mas dizer que a verdade é apenas o que existe fora da arte produzida é recusar grande parte das fontes de que os historiadores se servem - no futuro, se quisermos saber como se vivia a partir do século XIX, bastará consultar toda a informação audiovisual que se vem acumulando desde a invenção da fotografia. E será menos real, a realidade assim representada?

12/11/09

A Luz Fraterna

Não sabia de quem é o quadro que aparece na capa de A Luz Fraterna, o recente livro publicado pela Assírio & Alvim que reúne a obra poética de António Osório. Quando tive a oportunidade de o folhear, espreitar a ficha técnica, li um nome que deveria ter algum significado, Miguel Ângelo Lupi; mas não tinha. Procurei no Google aquele nome e apareceram algumas imagens, retratos, cenas de grupo, um ou dois que eu eu já vira - no Museu do Chiado. O quadro em questão, Contraluz, é um óleo pintado em 1875, e é extraordinário. Falo de uma reprodução, uma imagem sobre a qual repousam letras, imagino que distante do que será aquele quadro ao vivo. Não encontrei nenhuma versão na Internet e na ficha técnica não é referido se ele está exposto em algum museu. Uma mulher descansa na ombreira de uma janela, entre a penumbra da casa e a luz que a invade. O vento parece levantar as cortinas, pintadas de um diáfano dourado, permitindo que se projecte uma sombra laranja que desenha no chão a forma da janela. A mulher, loura, melancólica e bela, olha para um ponto entre o chão e nós, que a vemos, ou não olha, sonha enquanto o pintor a captura. Mas o que torna a pintura soberba são os tons de vermelho - o reposteiro cobrindo as cortinas, mais escuro e denso, e a cor sanguínea da faixa que cinge a cintura.
O que parecia ser um quadro marcado por um classicismo tardio, revela-se algo mais do que isso: o pintor conseguiu representar aquela mulher no momento em que ela se transforma num mistério, do mesmo modo que Hopper o faz, por exemplo; o momento em que sua natureza se revela, ocultando-se. A margem onde não acedemos.

Lua

Uma boa ideia, não totalmente concretizada, mas que vale pelo ar rétro dos cenários e pela elegante direcção de Duncan Jones (filho de peixe sabe nadar, ainda que noutro mar). O filme precisava de risco no argumento, desenvolvimento, novidade. Fica-se pela ameaça de sobressalto.

11/11/09

Uma greguería

O escritor vê as palavras na folha em branco.

A namorada de Wittgenstein (visitem-na).

LXII. O tempo não voa

Desacerto, o tempo
não voa - trespassa,
acomete, traça,
rapina.

Nem esvoaça
ou plana,
volta e revolta
encadeado, omni-
parente.

António Osório, em A Luz Fraterna, ed. Assírio & Alvim

03/11/09

We Are Your Friends/Justice vs Simian



Um video cool para uma banda que tem tudo para ser cool: são franceses, da área da electrónica, e o seu grande êxito é uma remistura, neste caso do projecto inglês Simian. As batidas são retro qb, sintetizadores analógicos dançantes Daft Punk style e o respectivo refrão a martelar obsessivamente, ou não se produzisse assim um fenómeno das pistas de dança - e foi, em 2006. Mas o que interessa é esta curta, realizada pela dupla Rozan & Schmeltz - a definição de um videoclipe: a montagem acompanha o ritmo da música, arrastado e lento, e ilustra o que se vai cantando. No fundo, a eficácia resulta da coreografia dos actores e da sintonia entre os seus movimentos e o dos objectos que tendem para o caos. Nada a que qualquer grupo de amigos solteiros não esteja habituado, de resto. Um encanto sem grande teoria, como a boa música electrónica deve ser.

31/10/09

Arturo Bandini


O que me levou a comprar o livro de John Fante foi um engano. Claro que a capa e o elogio de Bukowski ajudaram, mas a primeira frase, genial, foi o gancho que me prendeu: "Eu era novo, passava fome, bebia e tentava ser escritor". Ah, se todos os livros que me passam pelas mãos começassem assim, de modo tão exacto e alusivo. O nome da editora, Ahab, é outra pista: algo que se reclama da sombra protectora de Melville merece mais do que respeito; reverência. Não tinha lido Bukowski com atenção até há uns meses, mas depois de duas soberbas narrativas (Mulheres e Correios, este publicado pela extinta - e saudosa - Canguru) e de quase toda a poesia - viva, apaixonada, tão longe da esterilidade de muito lirismo moderno - posso afirmar que já consigo detectar-lhe o estilo à primeira frase. E foi isso que apanhei ao ler aquele começo, as primeiras palavras de Fante. Deste eu apenas sabia que vivera em Los Angeles e que certamente se cruzara com Faulkner, e que fora leitura da geração beat, Kerouac, e principalmente Bukowski. Diabo, Bukowski teve de ir beber a alguma fonte, e este livro, agora quase terminado, prova-o. Li um pouco mais do primeiro capítulo, desfiz as dúvidas - referências a livros de escritores mortos em Bibliotecas Públicas, boémia e derivação, infortúnio, o que mais se pede a um escritor? Antes de sair, comprei o livro - fiz questão disso, não esperei que mo oferecessem - e comecei a lê-lo enquanto esperava pelo autocarro. Aquelas primeiras páginas contêm uma energia semelhante à que anima os livros de Bukowski, o mesmo desespero inábil e uma simplicidade técnica desarmante. Ao fim de cinco páginas, aquilo de que eu devia ter desconfiado: assinado, "Charles Bukowski, 5 de Junho de 1979". Sacana, as palavras eram mesmo dele. Distraído como sou, começara a ler o prefácio ao romance julgando ler já as palavras de Fante. Se parece ser Bukowski, é porque é; por vezes, é fácil diagnosticar a má literatura: quase sempre são maus copistas, plagiadores a soldo do esquecimento; o estilo de um bom escritor é inconfundível. Bom, sorri com o erro - e julgo que a senhora ao lado desconfiou daquele esgar meio louco. De seguida, primeiro capítulo. Mas o espanto não se esgota no prefácio, continua no (verdadeiro) primeiro parágrafo: "Uma noite estava sentado na cama do meu quarto de hotel em Bunker Hill, bem no meio de Los Angeles. Era uma noite importante na minha vida, pois tinha de tomar uma decisão sobre o hotel. Ou pagava, ou saía: era o que dizia o bilhete que a proprietária tinha metido debaixo da minha porta. Um problema bicudo, a exigir toda a minha atenção. Resolvi-o desligando a luz e metendo-me na cama." Não precisava de dizer mais nada para me convencer. John Fante tem tudo o que Bukowski tem, e um pouco mais: Arturo Bandini, alter-ego do escritor, é um Holden Caulfield real, a braços com um hesitante início de carreira e às voltas com uma mexicana, empregada numa tasca, que lhe dá água pela barba. É ingénuo, impulsivo, lírico, deprimido, desabrido, terno e violento, imprevisível. Passeia-se pela Los Angeles dos anos trinta cismando na futura glória literária, carregando o peso de uma educação católica, rogando a absolvição do pecado da luxúria em que incorre quando pensa na bela latina de cabelos pretos. E vou apenas a pouco mais de meio do livro.
Ainda bem que Bukowski me levou ao engano. O acaso é o alicerce que sustenta a vida.

Ahab edições


Passados dez anos como livreiro, é difícil ser surpreendido - positivamente, pelo menos, já que a imaginação das editoras no que diz respeito ao mau gosto é inesgotável; desde livros com fitinhas, livros vendidos dentro de recipientes de fruta, livros com outros livros, livros com máscaras anti-epidémicas, de tudo um pouco tenho visto. Há casos em que parece que o produto vendido não é o livro, mas a sua oferta. Se a isto juntarmos os verdadeiros crimes cometidos contra bons autores - a título de exemplo, lembro a recente reedição de Ulisses e Retrato do Artista Quando Jovem, pela Difel, ou a nova linha gráfica da Teorema para Italo Calvino - compreende-se o desencanto sentido, que se nota mais nos últimos anos - a concentração editorial empobreceu a diversidade, e a sobrevivência dos projectos que interessam, mantidos por verdadeiros editores e não por burocratas vindos dos cursos de marketing, é bastante precária. Por isso, tenho de ficar contente quando aparecem no mercado estas excepções à mediocridade.
A Ahab edições começa por ter um lema admirável - à semelhança do que acontecia com a Cavalo de Ferro, outra editora arrastada para a lama por razões de pura trafulhice, por alguém que não merece outro epíteto que não seja o de canalha - mas isso é outra triste história. "There are some enterprises in which a careful disorderliness is true method". Fantástica frase, retirada de Moby Dick, e uma escolha de risco para bandeira do projecto. Mas começam muito bem - os primeiros livros publicados são objectos belíssimos, dão vontade de folhear e ler: Pudor e Dignidade, de Dag Solstad, A Ilha, de Giani Stuparich, Pergunta ao Pó, de John Fante. Boas traduções, e no caso de Solstad, isso é óptimo, até para contradizer a história recente - Solstad é noruegês, e pelos vistos há tradutores em Portugal das línguas escandinavas, ao contrário do que indiciava a opção da Oceanos, ao traduzir Stieg Larsson do francês. A tradutora de Stuparich é Margarida Periquito, com trabalho mostrado na Cavalo de Ferro, e Fante é traduzido pelo poeta Rui Pires Cabral, que é também um excelente tradutor - dele li em português Kazuo Ishiguro. Elogie-se o que merece ser elogiado - se aparecessem mais ilhas como esta no meio da corrente de maus livros que diariamente inunda a livraria, o meu trabalho seria um mar de rosas. Para descansar de todos os gatos que passam por lebre.

23/10/09

Saramago vs Deus (2)

O nível a que Vasco Pulido Valente desceu hoje, na sua crónica do Público, penso que põe um ponto final decisivo no caso Saramago. Se não começou bem - o anticlericalismo básico do escritor é coisa serôdia, ultrapassada - e continuou ainda pior - com todas as virgens ofendidas clamando por uma suspensão da liberdade de expressão, que costuma ser tão querida por toda a gente -, seria previsível um texto tão orgulhosamente rancoroso e mal-educado como o de VPV. Ao habitual desfile de amargura, maus fígados e snobismo, VPV juntou o insulto e a arrogância de privilegiado que, de resto, está sempre latente em cada alfinetada que dá. Vasco Pulido Valente é, no fundo, o retrato robô possível das elites a que temos direito: um estrangeirado pesporrento que julga que, só porque leu Eça e Ramalho Ortigão, pode criticar quem, por mérito próprio e contra a classe a que VPV pertence, combateu a imobilidade social que durante séculos dominou o país - esta luta é, sem qualquer dúvida, a mais importante herança do 25 de Abril. É contra gente como VPV que a revolução foi feita. Não sei como pode ser classificado o catálogo de imbecilidades por ele alinhavado: o insulto, o paternalismo, a raiva, são coisas que não podem ter desculpa. Prefiro mil Saramagos exaltados e oportunistas a um Vasco Pulido Valente de rei na barriga, importunado com o êxito de alguém que, do seu ponto de vista, é de outra classe social. Certamente que o país bem pode dispensar estas elites.

20/10/09

Extinção


Vamos falar de coisas sérias. Deixemos de parte as distracções que a literatura proporciona - é tão bom amar um autor, é tão bom odiar um autor, e esquecer a obra. Tenho pena que a editora Quasi tenha falido - ou perto disso. Já não deve haver quem duvide de que o aparecimento de grandes grupos editoriais seja prejudicial para o mercado. A Quasi foi importante porque dedicou-se anos a fio a publicar poesia inédita de autores portugueses*. E, contrariando a aura negativa que se foi formando em redor daquele projecto, acho que acertou muito mais do que errou, apenas por ir publicando. Jorge Reis-Sá criou vários anticorpos, mas um editor não precisa de ser unânime no trabalho produzido. O que ele tem para mostrar é um catálogo com dezenas de nomes revelados, alguns bons poetas, outros menos, dois ou três notáveis. Nenhuma editora portuguesa se pode orgulhar de tanto, nos últimos dez anos (e não falo do resto, as traduções e a boa ficção também paridas). A Assírio & Alvim praticamente deixou de publicar novos autores; a colecção Forma, da Presença, é uma memória vaga; a Caminho publicava aqui e ali algum poeta do PCP até ser comprada pela Leya, e desapareceu desta área da edição; a Relógio d'Água também, nitidamente, deixou de publicar poesia, mesmo autores traduzidos, que era uma das marcas da sua política editorial. O que temos, então? O aparecimento de fugazes editores que publicam meia dúzia de livros e desaparecem do mercado, certamente pela intrínseca inviabilidade comercial do género. E o surgimento de novos poetas em semi-edição de autor, como é o caso de Miguel-Manso, por exemplo. Muito pouco.
Vale a pena proteger esta espécie em vias de extinção, a poesia? Bem, esquecendo o facto de a literatura ocidental ter começado com um poema - a Ilíada... na verdade, a principal razão para proteger esta espécie é essa. Defender projectos editoriais que publiquem poesia deveria ser uma causa intocável. Os poetas talvez não precisem de editoras para escrever; haverá sempre alguém que resista à normalização dos costumes. Mas certamente que a poesia devia continuar existir para quem não escreve. A modernidade utilitarista dispensa o uso da inutilidade, e não há coisa mais inútil que um poema - não "distrai", não conta uma história, não ajuda a pessoa. Aceitamos então este avanço em direcção a um risonho futuro sem inutilidades, excrescências de um tempo cuja seta aponta apenas para o futuro? Pergunto novamente: vale a pena defender um ofício inútil contra as investidas da uniformização cultural? Se há pergunta que tem resposta incluída é esta; é lamentável que a poesia se vá tornando um resquício do tempo que passa.

*Não costumo alterar textos publicados no blogue, como é evidente, mas tive de o fazer porque esta frase saiu diferente do que tinha escrito no rascunho inicial. É claro que a Quasi não foi a única editora a publicar novos poetas. Foi a mais importante, sem dúvida. O Dr. Henrique Fialho e o Sr. Fortinbras objectaram esta passagem do texto, por isso corrigi o que estava errado. Quanto ao resto, ficará para outras núpcias.

13/10/09

Humor de risco


Outro exemplo de uma opção editorial esteticamente irrepreensível mas que, do ponto de vista prático, acaba por ser um desastre, é a nova colecção de literatura de humor dirigida por Ricardo Araújo Pereira para a editora Tinta-da-China. Neste momento, esta editora é, de longe, a referência para o sector na área gráfica. O trabalho de Vera Tavares tem sido fantástico, conseguindo estabelecer uma linha gráfica que associamos de imediato à editora, mantendo a individualidade de cada uma das colecções. Os dois títulos agora saídos, Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens, e Jacques, o Fatalista, de Diderot, são exemplo de um arrojo estético assinalável. Mas ao estilo retro procurado pela designer poder-se-ia ter juntado um mínimo sentido prático, sem perder o ar chique que os livros sem dúvida exibem. O aspecto de livro antigo, sem lombada a proteger os cadernos, que ainda por cima estão unidos por costuras excessivamente frágeis, é um risco. E também não ajuda o facto de capa e contracapa não terem uma película a proteger o cartão de que são feitas. Ao fim de poucos dias na livraria, o papel que cobre esse cartão começou naturalmente a descolar. Dá que pensar na balança entre ganhos e prejuízos, quando os livreiros devolverem o que não se vende. Quantos exemplares estarão, nessa altura, irremediavelmente danificados?

Como não vender um livro

Esta é a capa do livro que reúne textos sobre a obra de Pedro Costa. Um belo objecto gráfico, sem dúvida, mas um conselho: não seria sensato pôr o nome do realizador na capa, um fotograma de um filme, qualquer coisa que fornecesse ao potencial leitor alguma informação sobre o conteúdo do livro? Ou achará o editor que todos os cinéfilos lêem suplementos literários, o mais provável meio de divulgação? Achará ele que o vil comércio conspurca qualquer obra de arte?

01/10/09

Bartleby Cavaco (reposição)

Cheguei a escrever em tempos um texto no qual chamava à colação Bartleby a propósito de Cavaco Silva; fazia, continua a fazer, todo o sentido: "eu poderia fazer, mas não o fiz; prefiro não o fazer; prefiro o silêncio ao erro". Mas os últimos desenvolvimentos da farsa nacional transformaram Cavaco num triste clown de Beckett, trágico, perdido, o derradeiro romântico. Por todo o lado vê inimigos e foge, dança, faz malabarismos, não deixa descansar o país, que deve estar em pulgas (deve, deve) para saber o que verdadeiramente o apoquenta (os esclarecimentos de ontem ainda sujaram mais as águas em que este caso foi navegando).
Mas, não será doutor Cavaco tudo o que aparenta ser? A trupe socratista alegremente canta a senilidade precoce do nosso presidente, talvez para esconder o receio que deve sentir perante o menear de ancas exótico que ele executa com mestria. O que se estará a passar na cabeça do presidente? Escutas, apenas são uma boa ideia enquanto forem tema de uma vaga suspeita; fragilidade do sistema informático, um pretexto para não se falar da suspeita; finalmente, lançar as culpas dos atritos para o PS, uma cortina de fumo para cobrir as verdadeiras intenções do Bartleby de Boliqueime. O Maquiavel da Marmeleira, Pacheco Pereira, já se atreve a sussurrar o que aí pode vir, mas estamos apenas no reino do faz-de-conta, com palminhas e tudo à mistura - preparar-se-à um mini golpe de estado? Haverá reais hipóteses do presidente não pedir ao líder do partido mais votado para formar governo? Dê por onde der, o rastilho para a instabilidade permanente até à queda de um governo minoritário já foi aceso. Será que ainda nos podemos dar ao luxo de pensar que o clown não sabe muito bem o que está a fazer?

(Ah, o texto que publiquei em 2006 é tão premonitório que tenho de o republicar aqui:

Talvez seja um equívoco, mas a meu favor joga o facto de qualquer opinião sofrer do defeito a que se pode chamar de sub-evidência: o que o futuro esconde nem sempre compensa a clarividência em relação ao passado. Mas a julgar pelo que temos visto nestes primeiros dois meses de presidência - Cavaco presidente, Cavaco presidente, habitua-te! - há uma coisa que não vai mudar na figura: o estilo Bartleby. O de Melville, o escrivão que, a certa altura, decide enveredar pelo estranho caminho do desvanecimento. A resposta de Bartleby, plena de um desarmante non-sense, não exige uma réplica ou uma arguência. É assim, subsiste por ela própria. "Preferia não o fazer." Em vão o chefe se esforça para convencer Bartleby da bondade dos seus pedidos, da justeza da sua autoridade, da imoralidade do procedimento do escrivão. A tudo, Bartleby prefere não fazer. Esconde-se a um canto do escritório, alimenta o rancor dos colegas e a ira do patrão, acaba por desaparecer, literalmente, vive no escritório e ninguém - a não ser o advogado que o contratou - dá pela sua presença. Cavaco, desde o "Tabu", cultiva o estilo Bartleby. "Vai recandidatar-se?" "Preferia não responder." "Candidata-se a presidente?" "Preferia não responder." "O aborto, que tal?" "Preferia não falar disso agora." "Poderes do presidente?" "Preferia não emitir uma opinião neste momento." "Lei da nacionalidade?" "Preferia não levantar ondas." "Aprova a política do governo para a saúde?" "Preferia abster-me de emitir uma opinião sobre o assunto." E assim estamos. Mutismo e respostas evasivas. Quem temia - ou desejava - uma vigência de Cavaco agressiva e conflituosa pode ir tirando o cavalinho da chuva. Esta vai ser a presidência Bartleby. Foi assim que ele conseguiu ganhar - à segunda, não esquecer - o voto dos portugueses, será assim que ele irá conquistar o coração de um povo. Combate de uma vida. Como em Melville, as respostas de Cavaco nada dizem porque nada pretendem dizer. Não ouvimos da sua boca a negativa peremptória ou a retumbante positiva, tudo é sim, mas se, talvez. "Preferia não o fazer, que maçada. Pensar, preocupar-me, levantar ondas, que sentido há nisto tudo?" Bartleby, o escrivão, acaba como uma personagem de Beckett - ah, bendito diacronismo! - prostrado contra o solo sob o peso da existência. Não se recusa a ser. Apenas preferia não o ser. Diferença fundamental, também em questões de retórica. Passando despercebido por entre as gotas de chuva.)

Queria dizer-vos

Photobucket

28/09/09

Em frente é o caminho

Vamos lá fingir que isto é a sério; houve uma eleição, o povo votou (60% dele, 60) e deu mais algum tempo ao político com o discurso mais vazio da política portuguesa. Sócrates não sabe o que é ideologia, não tem uma estratégia a longo prazo, vive para ser amado. Mas o povo gosta de McDonalds e de Sócrates e de Santana Lopes, e sempre gostou de Portas, quando ele andava pelas feiras ou a comprar submarinos, mais agora que decidiu eleger como principal bandeira do CDS o combate ao rendimento social de inserção. O povo gosta dele porque o povo não é parvo? Não, o povo é preconceituoso, diz mal do cigano que recebe do estado e do vizinho que está há um ano em casa; o povo tem pouco e quer que os outros tenham ainda menos. Por isso, votou Portas. A onda será breve, acredito, porque o centrão não gosta do populismo, venha ele de onde vier. Durará o tempo que durar o governo de coligação com Sócrates. Escrevo Sócrates porque o PS neste momento é Sócrates - Alegre espera que o apoiem na missão presidencial e vai-se calar bem caladinho se a coligação for para a frente. Seguindo em frente então, que Cavaco amanhã dirá se foi ou não escutado, e decidirá se há governo ou não, e de certeza que Sócrates já tem preparada a pele de cordeiro que irá usar durante os próximos tempos; não quatro anos, nunca, até às próximas eleições e ao regresso de um Messias qualquer que salve o PSD da obsolescência.
Mas se não fosse a sério, pensaríamos: coisa estranha que aconteceu aos líderes dos partidos no momento do discurso da vitória; eles, que se apressam sempre a lamentar os números da abstenção e o desinteresse geral dos portugueses, esqueceram-se de referir a ausência de 4 milhões. Ausência ou presença absoluta? O regime que nos tem governado faz por esquecer estes descontentes, mas, mais tarde ou mais cedo, o seu peso será insustentável.

25/09/09

O poder e o povo


Fuck! (Com ponto de exclamação e tudo.) Mais quatro anos de Sócrates em desmando total. Que porra de país é este que gosta tanto de chafurdar na lama. Merecemos todo o mal que temos e mais algum que venha. Conspirações, corrupção, controlo dos media, difamação, promessas vãs, dirigismo, agências de comunicação, incompetência, muita incompetência, políticos vazios e oportunistas à espera da próxima grande empresa pública, mais incompetência, arrogância, prepotência, falsidade, ainda mais incompetência e todos os países da União Europeia que ainda estão atrás de Portugal a passarem-nos à velocidade de um TGV, obrigado portugueses por me terem dado 8 anos (e mais 8) de Cavaco absolutista e agora a mesma receita de Sócrates. Merecem todo o meu asco e o desejo de que o pior vos aconteça - porque aos políticos nada acontecerá, nem que o país se afunde num buraco negro.

24/09/09

Tarantinesco (2)


O pathos, obrigatória conclusão de qualquer grande tragédia, em Sacanas sem Lei, aparece numa cena cómica, e isso diz tudo acerca das intenções de Tarantino. Existe um esvaziar de tensão na cena da conversa entre Landa e os basterds americanos, e o cómico da situação (há muito que não me ria tanto num filme) vem não tanto da piada em si - a total falta de aptidão dos americanos para as línguas estrangeiras é um tema abundantemente glosado - mas do modo como Tarantino gere a tensão interna da obra: no momento em que o plano pode ser descoberto, e tudo tem de funcionar na perfeição, percebemos como não há a mínima hipótese de o grupo de sabotadores conseguir ter êxito.
Ora, é evidente que, ao longo de toda a obra de Tarantino, as imagens nascem das palavras; são os diálogos que sustentam a narrativa e a punchline certa é o maná que o realizador procura a cada momento. Como numa comédia, mesmo que exista uma forçada necessidade de gravidade, talvez porque a crítica não se tem cansado de repetir, desde Cães Danados, que o génio de Tarantino precisa de um filme sério para se tornar imortal (como se, por exemplo, Some Like it Hot não fosse um filme sério).
O que resta, então? Algumas sequências que emulam os clássicos, discretamente dissimuladas por entre camadas de auto-ironia e diálogos delirantes: a cena, em Jackie Brown, da execução por Samuel L. Jackson do traficante (Chris Tucker) é uma homenagem ao Orson Welles da abertura de Touch of Evil, e em Basterds há a tal porta aberta para o horizonte que sinaliza a aproximação a John Ford, um pastiche quase vergonhoso (como se fosse um spoof) ao mestre do western.
Entre esta pressão de gravidade que alguma crítica impõe e o assumir do cómico como género preferencial, o indesmentível génio de Tarantino vai-se emaranhando. Talvez ele nem se importe com isto -mas parece que ficou aborrecido por não ter recebido a segunda Palma de Ouro. O primeiro prémio em Cannes, recebido por Pulp Fiction, é sinal da alguma coisa: o maníaco descontrolo metaficcional e xunga é o território onde o cineasta se sente mais à vontade. Chega de querer fazer uma obra-prima. O mais provável é já ter conseguido o feito.

18/09/09

Tarantinesco

Se algum defeito se pode encontrar nos filmes de Tarantino é o de padecerem de um défice de emoção. Desde Cães Danados que o realizador vem fabricando perfeitos exercícios formais, ensaios pós-modernos, bulímicos e auto-irónicos, festins virtuosos e exibicionistas para cinéfilos mais ou menos reticentes. A verdade é que, ao sucesso crítico mais ou menos unânime, Tarantino tem juntado a aclamação do grande público. Todos os ingredientes que agradam ao gosto geral estão lá: a violência gráfica caricatural, as citações pop, a recuperação de actores que foram de alguma maneira ícones xunga recentes. À superfície, os filmes de Tarantino são bombons comerciais para serem degustados por toda a gente - e têm-no sido, com a surpreendente excepção de À Prova de Morte, que talvez não tenha tido o mesmo êxito por ter um sabor ainda mais exótico do que as restantes obras; mas as segundas e terceiras leituras que os filmes podem ter levam a que o resto do público (aquele que tem, ou julga ter, as armas certas para a descodificação de um cinema mais exigente) se renda. É claro que o snobismo destes cinéfilos desconfia da popularidade do realizador; mas a frieza cerebral, o modo como Tarantino gere as remissões para outras obras e a destreza técnica insuperável que demonstra em cada plano de cada filme (no fundo, ele é comprovadamente um génio), acaba por desarmar as eventuais perplexidades críticas deste grupo. E o pleno é quase conseguido. Mas... a verdade é que tanto fogo-de-artifício, tanta exuberância formal, acaba por esvaziar os filmes daquilo que, julgo, é a essência do cinema: a emoção. Como Brian de Palma e Copolla, Sergio Leone e John Ford, Tarantino acaba por perder o combate com o outro grande realizador da actualidade, David Lynch. E porquê?

(continua)

11/09/09

Sinédoque, Nova Iorque (2)

Tanta ambição de Charlie Kaufman acaba por ser submetida ao espartilho da sua inexperiência. E o principal problema do filme é mesmo o facto de Kaufman não ter sabido encontrar um imaginário visual que espelhasse na perfeição o delírio do argumento. A ideia de um teatro onde é encenada uma vida (ou várias), não sendo nova, poderia sempre ser desenvolvida de um modo original (parece-me); mas os caminhos que o argumento segue - são sempre as palavras a escolher as imagens e não o contrário - perdem-se num horizonte confuso e estéril. O cenário gigantesco escolhido pelo encenador para pôr em andamento a representação do tempo da sua existência (a substituição do todo pela parte, a sinédoque do título), comparado por exemplo com aquele montado num filme com algumas parecenças com este, The Truman Show, é de uma eficácia reduzida. Os espelhos que se multiplicam - como num quadro de Magritte - vão perdendo o brilho e a capacidade de reflectir a realidade; à medida que o filme vai avançando - e o tempo vai passando, no ecrã e cá fora - vamos perdendo de vista as personagens. E seria este o objectivo de Kaufman. Mas o esforço intelectual do realizador deixa de parte algum risco, instinto. A loucura é controlada, e não chega a ser dado o salto, o golpe de asa, para que o filme seja grande. Talvez o objectivo de Kaufman seja reproduzir em filme a sensação de opacidade baça que cobre o quotidiano, a passagem dos dias. O problema é que o cinema depende do movimento, da mudança, do drama. Caso contrário, é apenas um longo e culpado bocejo.

08/09/09

Poppy

O Pedro Mexia também serve para estas coisas: lembrar as melhores linhas do filme mais subvalorizado do ano passado. Obrigado pelo regresso.

HELEN: But you want a baby, though, don’t you, Poppy? (…)
POPPY: Maybe. Who knows?
HELEN: At thirty-five, you’re considered a high-risk mum.
POPPY: Oh, give me a chance - I’ve just turned thirty!
HELEN: It’s only five years away. You’ve got to make plans.
POPPY: What, Five-Year Plan? Like Stalin?

(Se fosse preciso escolher o nome mais adequado a uma personagem da história do cinema, Poppy levaria sempre o meu voto.)

03/09/09

Sinédoque, Nova Iorque

Os argumentos de Charlie Kaufman e a sua ostensiva genialidade têm tido, até agora, justas transposições para o grande ecrã, com maior ou menor originalidade. À simplicidade visual de Spike Jonze, quase naturalista, opôs-se o delírio cromático de Michel Gondry. Mas a eficácia destes dois realizadores tem sido notória. E é verdade que Gondry sem as palavras de Kaufman é vazio e desarticulado: basta comparar a energia romântica que anima Eternal Sunshine of the Spotless Mind com as peças soltas de que é feito A Ciência dos Sonhos; há uma ausência notória de continuidade no fio narrativo.
Sinédoque, Nova Iorque consegue mostrar de que modo se articula a relação entre palavras e imagens nos filmes idealizados por Kaufman. A sua primeira realização mostra todas as virtudes que lhe conhecíamos: a estilização de um quotidiano delirante, a criação de personagens bizarras presas numa normalidade sufocante, o labor certeiro na criação de um mundo que é apenas uma consequência da vontade das personagens, a representação de uma ideia. O exterior é o cenário de um sonho: a cabeça de John Malkovich, a esquizofrenia de Kaufman, ele próprio, em Inadaptado, a memória perdida e reencontrada de Joel e Clementine em Eternal Sunshine. Sinédoque, Nova Iorque vai mais longe na fórmula: a realidade sonhada não é apenas alternativa à realidade real, torna-se ela própria realidade: a peça encenada por Caden (Philipp Seymour Hoffman estranhamente adormecido) vai tomando conta da vida até ser a própria vida, como é escrito por Shakespeare, em As You Like It:

All the world's a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first the infant,
Mewling and puking in the nurse's arms;
And then the whining school-boy, with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad
Made to his mistress' brow. Then a soldier,
Full of strange oaths, and bearded like the pard,
Jealous in honour, sudden and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon's mouth. And then the justice,
In fair round belly with good capon lin'd,
With eyes severe and beard of formal cut,
Full of wise saws and modern instances;
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slipper'd pantaloon,
With spectacles on nose and pouch on side;
His youthful hose, well sav'd, a world too wide
For his shrunk shank; and his big manly voice,
Turning again toward childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion;
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.

(continua)